Que lições da Greve Geral de 30 de Maio?


Este texto é uma versão da introdução publicação do texto “A Greve Geral Hoje” do Peter Taaffe, um Marxista e Socialista Revolucionário, secretário Geral do Socialist Party de Inglaterra e Gales e membro do Secretariado Internacional do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) de Junho de 2003.

A Greve Geral de 30 de Maio teve, sem dúvida, um impacto forte na nossa sociedade.
Não é à toa que 1.400.000 operários e trabalhadores param, por todo o país e em todos os sectores, mesmo nas crescentes condições de intimidação e repressão nas empresas, mesmo nas condições de forte desemprego e crescente precariedade, mesmo nas condições crescentes de empobrecimento que nos afectam. Não é à toa que as TV e Rádios não conseguiram esconder que mesmo muitos dos trabalhadores que não fizeram greve, identificaram-se com ela, concordavam que havia motivos, acharam-na necessária.

Naturalmente, a classe dominante capitalista, os seus representantes na Comunicação Social e o seu Governo tentaram desvalorizar este acto de resistência e luta dos operários e demais trabalhadores em Portugal. Fazem o seu papel. E, naturalmente, que os seus representantes no mundo sindical, a direcção da UGT, tudo fizeram para isolar e tirar crédito a esta acção. Isso não impediu que sindicatos da UGT e independentes tivessem convocado greve para 30 de Maio.
Uma acção desta envergadura não pode deixar de ser avaliada. Pela classe dominante, que sabe muito bem que o esforço de minimização nos média e do governo esconde o seu profundo receio que os operários e demais trabalhadores tomem conhecimento da sua força potencial. Mas também pela classe trabalhadora, pelos seus dirigentes, políticos e sindicais. E, cremos, quanto maior o grau de seriedade de avaliação da Greve Geral maior ganho terão os operários e demais trabalhadores ao retirarem lições deste evento para preparar a luta que continua.
Assim, cremos que a preparação da Greve Geral revelou, por um lado, a militância e dedicação na luta de classes de muitas dezenas de milhar de militantes operários e sindicais. A organização de classe existe e intervém nas lutas quotidianas. Obviamente que necessita de ser melhorada e alargada e a preparação do 30 de Maio assim o demonstrou. Uma das consequências da Greve Geral foi o incorporar na luta colectiva muitas e muitas empresas e trabalhadores que ainda não estavam organizados.
Atempadamente defendemos, no seio do Movimento Sindical, que a ideia da Greve Geral deveria ter sido lançada em Novembro, no Protesto Geral. Suportamos também a ideia da necessidade da definição de um Programa Mínimo imediato que ajudasse na mobilização da Greve geral e que servisse como Campanha de acção depois dela. Porém, a direcção da CGTP-IN pôs na rua um slogan, “Mudar de Rumo”, que foi demasiadamente vago e, por isso, mobilizador para a Greve geral mas não para manter campanha. Continuamos a defender a definição de um programa mínimo que sustente uma Campanha Permanente dos Sindicatos numa perspectiva de unificar e alargar as lutas de resistência para que se passe a uma nova fase, a da construção de uma alternativa dos trabalhadores.
A Greve Geral foi construída, e bem, com base nos locais de trabalho. Seria ilógico e impossível que não fosse. Mas as novas realidades demonstram que os trabalhadores reformados e aposentados, os desempregados – trabalhadores inactivos, e os estudantes – maioritariamente filhos de trabalhadores – podem e devem ser activos nas lutas. Fizemos uma intervenção precisamente nesse sentido, no Plenário Nacional de Sindicatos que ratificou a decisão do Conselho Geral da CGTP em convocar a Greve Geral. Algumas experiências positivas foram desenvolvidas em algumas localidades e bairros no sentido de apelar a estes sectores e aos trabalhadores que não se encontram sindicalizados a participar na Greve Geral.
Estas e outras avaliações retiram dos aspectos menos bons detectados ideias práticas para os ultrapassar de futuro.
Mas infelizmente, não foi apenas este tipo de avaliações que escutamos. Alguns, por exemplo o euro-deputado bloquista, Miguel Portas, sem dúvida em representação da linha maioritária que dirige o BE, alinham objectivamente com a classe dominante, afirmando que 1.400.000 trabalhadores em Greve Geral “fragilizaram” a CGTP, a Organização Social mais ampla e expressiva em Portugal.
Pensava este tipo de críticos que a CGTP estava a preparar uma greve geral insurreccional? Não nos parece. Simplesmente, ao disputarem a hegemonia política no campo laboral deparam-se com um enorme obstáculo: a sua própria incapacidade de apresentar propostas democráticas, combativas e mobilizadoras que rasguem caminho para um Sindicalismo de Classe, consciente do seu papel de enfrentamento ao sistema económico que nos domina.
Ninguém, de boa fé, pode por em causa o empenhamento político, social e sindical de muitos dos bloquistas. Como não o pode fazer em relação ao seu oponente, o esmagadoramente maioritário PCP.
É passar um atestado de incapacidade mental às muitas dezenas de milhar de activistas independentes e de outros partidos fazer coro com tudo o que é mais reaccionário na nossa sociedade, na acusação que a Greve Geral “foi imposta pelo CC do PCP aos sindicatos”. Na verdade, no processo de convocação da Greve Geral, sectores maioritariamente influenciados pelo PCP apresentaram as mesmas dúvidas e hesitações que alguns bloquistas e os socialistas e católicos. E daí não veio mal ao mundo.
O problema não está na contagem de espingardas entre Bloquistas e Comunistas. Está em dotar a classe operária, os demais trabalhadores, os precários e desempregados e os jovens em Portugal de um Programa Político que construa a Unidade na Acção, que unifique a classe operária e demais trabalhadores, comunistas, bloquistas, socialistas e sem partido, e que construa uma alternativa não meramente ao Governo mas ao sistema que o sustem, o Capitalismo.
Os interesses da classe da classe operária e demais trabalhadores são absolutamente irreconciliáveis com a “economia nacional” (leia-se Capitalismo) e é fundamental que os trabalhadores, e em primeiro lugar, os seus elementos mais activos, tomem não apenas consciência disso mas, na sua acção quotidiana, não se submetam à corrente que nos tenta amarrar à “realidade da economia de mercado” ou se amedrontem face ao “poder” do Capital.
E para isso, é necessário que os sectores mais conscientes e avançados dos trabalhadores, sejam eles do PC, do Bloco, socialistas, católicos ou sem partido, retirem lições na nossa própria experiência e procurem aplicar as suas conclusões nas lutas que continuam. É necessária a denúncia do “socialismo patronal” da direcção do P’S’! Mas também a popularização das ideias básicas do Socialismo, de uma verdadeira democracia dos trabalhadores, em que economia se submete aos interesses e necessidades da maioria e não é apenas e só fonte de lucro, com base na exploração do trabalho, por um cada vez mais reduzido grupo de capitalistas.

Junho de 2007
Francisco d’Oliveira Raposo
Alternativa Socialista – Comité por uma Internacional dos Trabalhadores

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