Algumas razões da saída do Bloco de Esquerda

Posted on 6 de Junho de 2007 por

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O nosso camarada Francisco d’Oliveira Raposo, aderente do Bloco desde a sua fundação, endereçou à Comissão Executiva dessa organização a carta que divulgamos.

O Alternativa Socialista regista o crescimento dos sectores críticos de esquerda à orientação dominante do Bloco.

Os aderentes do Bloco que procuram uma alternativa política ao Capitalismo e continuam firmes na convicção que “o Capitalismo não é reformável”, sabem que continuarão a contar com o nosso Colectivo na luta consequente e solidária pelo Socialismo.

Colectivo Alternativa Socialista – Comité por uma Internacional dos Trabalhadores

À Comissão Executiva do Bloco de Esquerda

A/c do Coordenador Nacional

Uma organização onde o seu Coordenador Nacional ouve impávida e serenamente um jovem funcionário vociferar contra a luta de classes mas que esse mesmo Coordenador usa todo o seu poder oratório e domínio de técnicas de isolamento para silenciar ou isolar os militantes de esquerda, não pode contar com o meu apoio.

Uma organização cujos dirigentes se empenham na crítica sectária contra o PC mas não esboça um esforço sequer para disputar politicamente a massa dos militantes de classe que o PC ainda contém, resvalando para um “bem comportado” anti-comunismo, não pode contar com o meu apoio.

Uma organização que se constrói no acordo interno de 3 grupos e de um conjunto de personalidades mediáticas e rejeita os passos concretos para se organizar nas empresas, bairros e escolas, promove o “assembleismo” e foge dos núcleos locais activos, numa construção de um partido de eleitores enquadrado por profissionais distribuídos – desigualmente – refira-se – pela “troika” APSR, UDP, Política XXI não pode contar comigo.

As ideias nucleares do “Começar de Novo” estão paulatinamente a ser absorvidas pelo sucesso eleitoral, pela produtividade parlamentar e pelo desnorte dos activistas, com companheiros a defender abertamente a conciliação de classes como prova da modernidade do socialismo de hoje.

Ao disputarem o mesmo espaço estratégico do PC estão a disputar, não o movimento operário e laboral que, apesar da política do PC, resiste e procura preparar-se para a ofensiva, mas a camada da classe média que controla efectivamente o PC e trava a classe trabalhadora de ter representação política. Assim, com afloramentos de radicalidade, o BE tornou-se charneira entre um PC ineficaz e um PS abertamente pró-capitalista.

Tende a tornar-se assumidamente uma parte do sistema e, portanto, – porque o problema central não é um particular governo mas o sistema que torna geral a pobreza, exploração e opressão – se se tornar alternativa será à governação do sistema e não ao sistema em si.
A posição “(a)moralista” sobre a Refundação Comunista é um mau presságio para o futuro do BE. No quadro de uma enorme pressão social que force o P’S’, numa aparente viragem à esquerda, que fará o Bloco? Por este andar, a direcção executiva do BE “assumirá as suas responsabilidades” e veremos ministros ou secretários de estado bloquistas num governo capitalista.

Mas a verdade é que – com todas as medidas de condicionamento assumidas pela maioria nos regulamentos e regimentos para que a oposição ficasse reduzida e fosse forçada a sair – os votos são claros. A maioria do Bloco deu-vos a responsabilidade de dirigir o Bloco. Têm a responsabilidade de coordenar o BE. A história dirá se estou completamente enganado.
Se se provar errado o que penso tirarei daí conclusões. Mas, em consciência, tal como creio que o PC não corresponde às necessidades políticas dos trabalhadores e jovens portugueses creio que o BE, que poderia ocupar esse espaço, com vossa orientação, irá caminhar para outros caminhos.

Assim sendo, comunico-vos a minha desvinculação do Bloco.

Cordialmente

Francisco d’Oliveira Raposo
dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa, (a título pessoal) e
militante do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores
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