França: Foi a política do governo que pegou fogo aos subúrbios

Esta é opinião dos militantes do Comité Por uma Internacional dos Trabalhadores em França, organizados no Gauche revolutionaire.
Os camaradas o GR publicaram um número especial do seu jornal, l’Egalité para divulgarem a sua análise e propostas sobre os acontecimentos que estão a abalar a França e a Europa.
O Alternativa Socialista divulga a tradução do artigo central do L’Egalité

É a política do governo que pegou fogo aos subúrbios

Chirac-Villepin-Sarkozy: Já chega!

Quem é responsável pela miséria dos bairros, quem condenou milhares de jovens ao desemprego? Qual é o sistema que não nos dá nenhum futuro? Pode-se mandar “o exército para as cidades” como dizem certos políticos da extrema-direita (de Villiers) que não habitam nos bairros, pode-se querer o contra – fogos como diz Eric Raoult ex-ministro, e presidente da Câmara de Raincy, em Seine-Saint-Denis mas onde não há mais do que 2,6% de habitações sociais … Na realidade, como dizem os jovens habitantes de Clichy-sous-bois entrevistados pelo jornalista do Vrai-Journal: «O Sr. Sarkozy, fala de economia subterrânea, (…) mas se -nos dessem os meios para prover às nossas necessidades, se se tivesse um trabalho decente, porque é que pensaríamos em economia subterrânea?»

Os acontecimentos que incendeiam as cidades desde há quase duas semanas não chegaram por acaso. Desde vários anos, a situação social nestes em bairros tem vindo continuamente a degradar-se. O desemprego maciço que excede frequentemente 40%, a ruptura dos serviços públicos, os despedimentos… tudo isto afecta o conjunto dos trabalhadores e as suas famílias. Mas nos bairros desfavorecidos, já antes não se tinha grande coisa: as consequências destas políticas implementadas desde há 20 anos instauraram de maneira permanente uma situação de miséria social, ausência de futuro, para milhares de jovens.É completamente compreensível e justo a cólera, a revoltar contra esta miséria e contra este sistema. Mas não é certamente queimando os automóveis e os equipamentos colectivos ou os serviços públicos (autocarros, escolas, ginásios) que se alterará esta situação. E não se pode aceitar que trabalhadores como os bombeiros ou os motoristas de transporte colectivos sejam ameaçados ou aleijados

Ainda se a cólera se exprimiu de uma forma maneira demasiado total, toda esta situação é a consequência das políticas efectuadas pelos diferentes governos. São eles quem destruíram os serviços públicos, suprimindo os empregos… A sua política está ao serviço dos capitalistas com o único objectivo de aumentar os lucros para um punhado de proprietários e de grandes accionistas. E para os jovens dos bairros, como para numerosos trabalhadores, esta política provocou: o desemprego e a repressão policial, e as discriminações para os trabalhadores e os jovens dos bairros.


A política racista e repressiva de Sarkozy
A morte de Zyed, 17 anos, e Bouna, de 15 anos em Clichy-sous-bois não chegou por acaso. Como confirma-o a publicação dos primeiros elementos do inquérito (os relatórios de Polícia na edição datada dos 08/11 do jornal Le Monde) aquilo que aconteceu foi efectivamente uma verdadeira surtida da polícia para cercar dezena de jovens que regressava tranquilamente de uma partida de futebol. As mentiras de Sarkozy e de Villepin que acusaram os jovens de roubo seguidamente de vandalismo numa barraca de um estaleiro enquanto, de que não há nenhum vestígio, mostram sobretudo a vontade de um governo de criminalizar os jovens sistematicamente. Foi mesmo porque estavam a ser eram perseguidos e aterrorizados que os dois jovens escalaram o muro do gerador FED e morreram electrocutados. No Domingo uma granada lacrimogénea da polícia atirada para a mesquita, no momento em que os pais e as mães de família se reuniam. Todo isto, como os acontecimentos das semanas precedentes, mostra que a vontade de provocação vem claramente do governo. A cólera dos jovens e dos habitantes do bairro foi a legítima consequência. A morte de Zyed e Bouna é directamente a consequência da perseguição policial que se sofre quando se habita uma cidade pobre, quando se é jovem, e ainda mais se se for de origem imigrante.
As provocações de Sarkozy, o ministro do Interior, podem mesmo levantar algumas interrogações. As suas regulares declaração sobre “racailles”, “escumalha” logo que fala de jovens habitantes dos bairros, ou seu declaração aquando a sua passagem cidade dos 4.000 em La Courneuve, em Junho último, onde declarou ser necessário “limpar tudo aquilo a mangueiras de alta pressão”podem levar-nos a perguntar se não foram provocações deliberadas. A sua vinda a Argenteuil em meados de Outubro, mediatizada como geralmente, uma vez mais tinha sido a ocasião para ele declarar às câmaras em frente de jovens e habitantes que protestava contra a sua vinda: “vamos desembaraçá-los estes de racailles”. Sarkozy lançou esta verdadeira campanha racista contra os jovens dos bairros para dividir-nos, para evitar que o conjunto os trabalhadores, de desempregados e jovens se bata contra o governo.
Se os “motins” tocaram mais de 300 cidades até agora, não é por acaso: esta é efectivamente a expressão de uma cólera comum a numerosos jovens que conhecem apenas o desemprego e a ausência de futuro. Enquanto a situação social e económica continuar a degradar-se, as causas da cólera permanecerão lá.
O que é certo, é que este governo está pronto para utilizar cada ocasião para reforçar a sua política. Utilizou os acontecimentos destes últimos dias para reforçar a repressão. O que é necessário, é organizarmo-nos contra governo e a sua política ao serviço dos capitalistas.
Aos 14 anos em estágio, ao 18 no Centro de Desemprego, aos 25 no RMI*? Não é estágio que precisamos, é de um verdadeiro emprego!
(* Empresa marítima francesa onde recentemente se deu um despedimento colectivo)
Villepin admitiu-o ele mesmo: “restaurou” (ver-se-á na realidade) o financiamento às associações de ajuda nos bairros: ocupação de tempos livres, assistência ao estudo etc.. Admitiu igualmente que os jovens cidades pobres tinham menos possibilidade de ter um emprego dado que propôs uma série de medidas que os ajudaria melhor a terminar os seus estudos. Mas na realidade, Villepin salvaguarda a sua orientação: não promete nenhum emprego para os jovens dos bairros, mas os estágios, os estágios e ainda os estágios. Os “estágios” aos 14 anos, são o primeiro passo para o fim da escola obrigatória até à 16 anos, é a possibilidade para os patrões sobrexplorarem jovens a partir de 14 anos, de despedi-los para virem outros seguidamente. Na lei Fillon da Primavera passada, os estágios para os jovens eram uma possibilidade para os que estavam em dificuldade. Doravante, graças às últimas medidas de Villepin, será a via obrigatória para qualquer jovem em “dificuldade escolar”.
Quanto ao reforço do “plano de coesão social”, ou das medidas sobre a habitação, aquilo vai ser uma vez mais a aceleração das demolições mas com menos habitações reconstruídas. E no mesmo tempo, são operadores privados que continuarão fazer a especulação imobiliária.
E sobretudo, o governo não perde a ocasião de impulsionar o racismo. Villepin não fez sair da gaveta a lei de 1955 por nada ou por pânico. Mostra o seu verdadeiro rosto instaurando o Estado de emergência. Utilizou uma lei procedente do passado colonial da França e que foi utilizada apenas para restringir a luta do povo argelino pela sua independência (e a partir de 1958 contra os que a apoiavam no solo francês) e que foi reutilizadas seguidamente pelo governo Fabius em 1985 contra o povo kanak que na Nova Calédonia lutava legitimamente também por a sua independência. Não é, por conseguinte, por acaso que tal lei foi utilizada.
Esta lei permite-lhes também atacar os direitos democráticos, já bem reduzidos com as leis Sarkozy e Perben. Com esta lei, procedente de um período de guerra, o Estado poderá proibir qualquer ajuntamento ou manifestação, todos os jornais e publicações, as reuniões, se considerar que são perigosos para o governo e a sua política. Desde já, os helicópteros sobrevoam os bairros cada noite!
O governo não teve nenhum problema em contar com organizações como a União das Organizações Islâmicas da França (UOIF), e outras correntes islâmicas, de modo que editem textos religiosos ou outros que chamam à “calma” mas obviamente que não criticam nunca a política do governo. Isso permite uma vez mais fazer passar os acontecimentos nas cidades como a acção exclusiva de jovens que seriam muçulmanos. Na realidade, os acontecimentos sobretudo deram-se nos bairros desfavorecidos, onde o desemprego é maciço: são muitas causas sociais que estão na base dos acontecimentos. As discriminações, os controlos de identidade dos que são de origem imigrante fizeram crescer a cólera em numerosos jovens.
Como parar este governo?
Um dos objectivos do governo é instaurar um clima de medo numa parte da população, de fazer passar assim ainda mais ataques contra todos nós e de restringir no máximo a juventude das cidades para os impedir de lutar. Uma das lições que é necessário tirar da situação actual, é que não são acções cegas e isoladas, nem o incêndio de escolas ou de empresas, que permitirão combater eficazmente Villepin-Sarkozy. _ que é necessário haver uma luta maciça, determinada, unida de trabalhador e jovens contra política governo.
Esta crise é a expressão nos subúrbios da crise que cresce desde há vários anos no conjunto do país. O desemprego, a precariedade, os baixos salários são od dia a dia de milhões de pessoas. É o produto dessa política efectuada pelos governos ao serviço do capitalismo. As habitações de má qualidade, os serviços públicos que desaparecem (encerramento de postos de correio, de estações ferroviárias SNCF…), os planos de despedimentos nas empresas… tudo isso provoca uma miséria crescente para numerosos trabalhadores. Mas tudo isso não acontece por acaso: é o resultado de uma política que visa satisfazer a necessidade de lucros dos patrões e dos grandes accionistas.
Contra Chirac-Villepin-Sarkozy : Trabalhadores, jovens, desempregados, franceses ou imigrantes, homens ou mulheres, todos juntos!
Como escrevemo-lo várias vezes estes últimos meses, é um governo de guerra contra os trabalhadores. Alguns vão certamente compreendê-lo a partir de agora: não é um governo que nos escute, não alterará a sua política. _ O que nós devemos fazer é parar a sua política e construir uma luta global para nos impor as nossas reivindicações. Da mesma maneira que utiliza leis como a de 1955 para a situação actual, o governo não hesitou a enviar o Gign (grupo policial de choque) contra os Marín grevistas do SNCM que tivessem tomado o ferry “Paoli”, ou o Gipn (outro grupo policial de choque) contra carteiros de Bègles (perto de Bordéus) em Junho passado.
Os dirigentes dos sindicatos como os das organizações que se reclamam anti capitalistas têm a sua parte de responsabilidade. Recusando organizar uma luta realmente determinada contra o governo e os patrões, continuando a pedir “negociações” a um governo que está determinado a levara cabo a política ultraliberal até ao extremo, os dirigentes sindicais desarmam os trabalhadores. Tal táctica não impediu a privatização do SNCM, ou o início de privatização de FED. E vai ser do mesmo modo sobre os outros assuntos se não se organiza uma luta global. Porque o que será necessário, é efectivamente uma luta determinada, combativa, verdadeira, uma greve geral para parar a política do governo.
Quanto às organizações como o Partido Comunista Francês (PCF) ou a Liga Comunista Revolucionária (LCR), à parte de emitirem comunicados de protesto, não propõem nada. Enquanto que o governo utiliza uma lei arquireaccionária e repressiva, estas organizações, nos seus comunicados, às vezes conjuntos, dizem oporem-se a ela mas não propõem absolutamente nada para se oporem realmente, na prática; a essa lei e proporem verdadeiras mobilizações.
Por tudo isto há urgência: é necessário organizar manifestações que reúnam todos os que estão contra a política do governo, contra a repressão. Nos bairros tocados pelos acontecimentos, é necessário organizar reuniões, Comités democráticos… onde cada um se possa exprimir, e para estabelecer reivindicações em termos de habitação, de serviços públicos, de empregos… Assim, a cólera exprimir-se-á de maneira organizada e consciente contra os verdadeiros culpados: o governo e os patrões.
Mudar o sistema!
Enquanto o capitalismo estiver no poder, haverá a exploração, a miséria… Os governos utilizarão o racismo para dividir os jovens e os trabalhadores, multiplicará a repressão para impedir-nos lutar. É por isso que é necessário organizarmo-nos contra o capitalismo. [É necessário um novo partido de trabalhadores e jovens.]
Tal partido permitiria igualmente efectuar a luta nos sindicatos para os obrigar a organizar uma verdadeira luta contra o governo e os proprietários, para preparar uma greve geral para parar este governo.
Tal partido permitiria igualmente efectuar a luta nos sindicatos para obrigar-o a organizar uma verdadeira luta contra o governo e os proprietários, para preparar uma greve geral para parar este governo um novo partido que reune os jovens e os trabalhadores permitiria pôr adiante o socialismo, única verdadeira alternativa ao capitalismo.
Porque para satisfazer as necessidades sociais, é necessário uma economia livre da lei do lucro, organizada democraticamente pelos trabalhadores para a satisfação das necessidades de todos. Com a nacionalização dos principais meios de produção, de transporte, e distribuição sob o controlo e a gestão democrática dos trabalhadores, seria possível começar a erradicar a miséria, o desemprego, o racismo, sexismo… que o capitalismo provoca.
È por esta perspectiva revolucionária que nós lutamos: junta-te à Esquerda Revolucionária, organiza-te connosco!
CRS e BAC, fora dos bairros já !
Não ao racismo, não à descriminação! Fim imediato dos controlos de identidade, supressão das leis securitárias, Não Ao Estado de Urgência!
Por um programa de urgência de construção de habitações decentes e acessíveis – contra todos os planos do governo visando dar aos especuladores privados a construção de habitação – pelo regresso do sector público de construção HLM
Pela retirada da lei Fillon sobre a educação – Por uma educação gratuita e acessível a todos
Não aos estágios, sim a verdadeiros empregos para todos, não aos contratos unilaterais (CNE…)
Igualdade de emprego e salários para todos : mulheres ou homens, jovens ou mais velhos, franceses ou imigrantes
Por serviços públicos de qualidade e gratuitos
Pela criação de emprego em grande escala nos serviços públicos, nas colectividades locais, por um controlo das empreitadas privadas por comités formados por sindicalistas e habitantes dos bairros. Não à descriminação e racismo nos empreiteiros!
Verdadeiros empregos para todos, não à privatização dos serviços públicos!
Pela criação de novas infra-estruturas sociais, desportivas e culturais. Pela sua reabertura depois de inquérito pelos sindicatos e os habitantes dos bairros se foram encerradas.
Todos os fundos que foram suprimidos para estruturas locais e associativas devem ser imediatamente restituídas (não num hipotético orçamento de 2006). Todo esse dinheiro que foi entregue aos especuladores imobiliários deve ser recuperado e reinvestido nos bairros desfavorecidos
Por uma luta unida dos jovens e trabalhadores por: por um verdadeiro emprego, uma habitação decente e serviços públicos de qualidade para todos e todas!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s