Acerca dos resultados eleitorais na Região
José David Gregório
Não sendo propriamente uma novidade, estalou o verniz entre Jardim e o poder central acerca da dívida escondida do Governo Regional e sobre a necessidade de um (mais um) resgate financeiro ao Governo Regional. Com mais “paninhos quentes” e “ralhetes” de Passos Coelho, o governo lá deu uma ajuda a Alberto João Jardim, deixando- o passar-se por “vítima do continente”. Ainda assim, o PSD – Madeira e Alberto João tiveram uma importante quebra eleitoral, sendo que, mantendo a maioria absoluta, perdeu 10% quase integralmente para o parceiro no governo central, o PP. Mas ainda não foi desta que os Madeirenses se viram livres de Jardim e seus apoiantes. Para mais esta “vitória” (não esquecemos os casos de fraude eleitoral nos anos 80 e do caso das carrinhas colectoras e eleitores), Jardim contou com o silêncio do governo central face ao plano de resgate das contas públicas que foi forçado a pedir depois da exposição pública da “dívida secreta” da Madeira, contou também com o seu jornal de propaganda financiado com dinheiros públicos, que sozinho acumula uma dívida que excede os 50 milhões de euros.
Assim, Jardim teve as mãos livres para fazer aquilo para que tem um “dom especial”: ameaçar, insultar e amedrontar, apelar ao “patriotismo” e acenar com a “independência”, avisando os trabalhadores do sector público para terem juizinho, enfim, o que há 30 anos este senhor e seus parceiros impõem aos madeirenses. Jardim diz, e reproduzem os seus apoiantes lá e cá: “pode haver dívida, mas há obra”. Uma análise, mesmo pouco profunda, das obras que têm sido feitas, facilmente se pode verificar que as obras não são foram para benefício das populações. Exemplos como a célebre marina sem barcos, o heliporto nunca usado, equipamentos sociais duplicados, inundam os jornais.
Dão ao líder populista inaugurações diárias durante a “campanha eleitoral”, para além de darem, e isso é que é o essencial, uma enorme transferência de capital público para as mãos privadas das construtoras e empresas que gravitam à volta dos colaboradores directos de Jardim.
É crescente a contestação ao clima asfixiante que se vive na Madeira, onde Jardim e os seus colaboradores políticos controlam totalmente, não só o aparelho de Estado, como a economia e a sociedade. Contudo, o PS ainda sofre no arquipélago do duplo fardo da política concreta de Sócrates e da demagogia jardinista contra o governo “socialista” e perdeu 1 deputado, passando a 3º partido, atrás do CDS-PP. Estranho é o facto de a esquerda parlamentar não ter saído reforçada na Região Autónoma. Antes pelo contrário: a CDU perdeu 1 dos seus 2 deputados e o BE, ponto fim à longa presença da UDP, perdeu os 2 deputados que detinha. Provavelmente o anúncio da disponibilidade do BE para uma coligação governamental (presumivelmente com o PS, mas também com o PP) ditou mais este desastroso resultado do BE. Com um discurso incisivo e directo, denunciando incansavelmente as negociatas e a miséria que coexistem na Madeira, mesmo de forma pouco ortodoxa, José Manuel Coelho levou consigo mais 2 deputados para o Parlamento Regional.
Quanto aos trabalhadores madeirenses, esses, como os do continente, sofrem na pele a política de absoluto desrespeito pelas pessoas, os seus direitos e aspirações. Irão sofrer em duplicado uma austeridade decretada para safar os verdadeiros fautores da crise: bancos, especuladores, off-shores e o “universo jardinista” que controla a Madeira. Também na Madeira é necessário organizar a luta e resistência ao massacre sem fim, exigindo o respeito pelos direitos democráticos, sociais e laborais.